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quarta-feira, 1 de março de 2017

A Quarta-feira de Cinzas foi instituída há muito tempo na Igreja; marca o início da Quaresma, tempo de penitência e oração mais intensa. Para os antigos judeus se sentar sobre as cinzas já significava arrependimento dos pecados e volta para Deus. As Cinzas bentas e colocadas sobre as nossas cabeças nos fazem lembrar que vamos morrer; que somos pó e que ao pó da terra voltaremos (cf. Gn 3, 19) para que nosso corpo seja refeito por Deus de maneira gloriosa para não mais perecer.

Qual é o sentido?

A intenção deste sacramental é levar-nos ao arrependimento dos pecados, marcando o início da Quaresma; e fazer-nos lembrar que não podemos nos apegar a esta vida achando que a felicidade plena possa ser construída aqui. É uma ilusão perigosa. A morada definitiva é o céu.

A maioria das pessoas, mesmo os cristãos, passa a vida lutando para “construir o céu na terra”. É um grande engano. Jamais construiremos o céu na terra; jamais a felicidade será perfeita no vale em que o pecado transformou num vale de lágrimas. Devemos, sim, lutar para deixar a vida na terra cada vez melhor, mas sem a ilusão de que ficaremos sempre aqui.

Deus dispôs tudo de modo que nada fosse sem fim aqui nesta vida. Qual seria o desígnio do Senhor nisso? A cada dia de nossa vida temos de renovar uma série de procedimentos: dormir, tomar banho, alimentar-nos, etc… Tudo é precário, nada é duradouro, tudo deve ser repetido todos os dias. A própria manutenção da vida depende do bater interminável do coração e do respirar contínuo dos pulmões. Todo o organismo repete, sem cessar, suas operações para a vida se manter. Tudo é transitório… nada eterno. Toda criança se tornará um dia adulta e, depois, idosa. Toda flor que se abre logo estará murcha; todo dia que nasce logo se esvai… e assim tudo passa, tudo é transitório.

Por que será? Qual a razão de nada ser duradouro?

Com­pra-se uma camisa nova e, logo, já está surrada; compra-se um carro novo e, logo, ele estará bastante rodado e vencido por novos modelos, e assim por diante.

A razão inexorável dessa precariedade das coisas também está nos planos de Deus. A marca da vida é a renovação. Tudo nasce, cresce, vive, amadurece e morre. A razão profunda dessa realidade tão transitória é a lição cotidiana que o Senhor nos quer dar de que esta vida é apenas uma passagem, um aperfeiçoamento, em busca de uma vida duradoura, eterna, perene.

Em cada flor que murcha e em cada homem que falece, sinto Deus nos dizer: “Não se prendam a esta vida transitória. Preparem-se para aquela que é eterna, quando tudo será duradouro, e nada precisará ser renovado dia a dia.”

E isso mostra-nos também que a vida está em nós, mas não é nossa. Quando vemos uma bela rosa murchar é como se ela estivesse nos dizendo que a beleza está nela, mas não lhe pertence.

Ainda assim, mesmo com essa lição permanente que Deus nos dá, muitos de nós somos levados a viver como aquele homem rico da parábola narrada por Jesus. Ele abarrotou seus celeiros de víveres e disse à sua alma: “Descansa, come, bebe e regala-te” (Lc 12,19b); ao que o Senhor lhe disse: “Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma” (Lc 12,20).

A efemeridade das coisas é a maneira mais prática e constante encontrada por Deus para nos dizer, a cada momento, que aquilo que não passa, que não se esvai, que não morre, é aquilo de bom que fazemos para nós mesmos e, principalmente, para os outros. Os talentos multiplicados no dia a dia, a perfeição da alma buscada na longa caminhada de uma vida de meditação, de oração, de piedade, essas são as coisas que não passam, que o vento do tempo não leva e que, finalmente, nos abrirão as portas da vida eterna e definitiva, quando “Deus será tudo em todos” (cf. 1 Cor 15,28).

A transitoriedade de tudo o que está sob os nossos olhos deve nos convencer de que só viveremos bem esta vida se a vivermos para os outros e para Deus. São João Bosco dizia que “Deus nos fez para os outros”. Só o amor, a caridade, o oposto do egoísmo, pode nos levar a compreender a verdadeira dimensão da vida e a necessidade da efemeridade terrena.

E se a vida fosse incorruptível?

Se a vida na terra fosse incorruptível, muitos de nós jamais pensaríamos em Deus e no céu. Acontece que o Todo-poderoso tem para nós algo mais excelente, aquela vida que levou São Paulo a exclamar:

“Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1 Cor 2,9).

A corruptibilidade das coisas da vida deve nos convencer de que Deus quer para nós uma vida muito melhor do que esta – uma vida junto d’Ele. E, para tal, o Senhor não quer que nos acostumemos com esta [vida], mas que busquemos a outra com alegria, onde não haverá mais sol porque o próprio Deus será a luz, nem haverá mais choro nem lágrimas.

Aqueles que não creem na eternidade jamais se conformarão com a precariedade desta vida terrena, pois sempre sonharão com a construção do céu nesta terra. Para os que creem a efemeridade tem sentido: a vida “não será tirada, mas transformada”; o “corpo corruptível se revestirá da incorruptibilidade” (cf 1Cor 15,54) em Jesus Cristo.


A expectativa do céu

Santa Teresinha não se cansava de exclamar:

“Tenho sede do Céu, dessa mansão bem-aventurada, onde se amará Jesus sem restrições. Mas, para lá chegar é preciso sofrer e chorar; pois bem! Quero sofrer tudo o que aprouver a meu Bem Amado, quero deixar que Ele faça de sua bolinha o que Ele quiser”.

São Paulo lembrou aos filipenses: “Nós somos cidadãos do Céu!. É de lá que também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará nosso corpo miserável, para que seja conforme o seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de submeter a si toda a criatura” (Fl 3, 20-21).

A esperança do Céu e da Sua glória fazia o Apóstolo dizer:

“Os olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1 Cor 2,9).

E essa esperança lhe dava as forças necessárias para vencer as tribulações: “Tenho para mim que os sofrimentos da vida presente não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rom 8,18).

Este é o sentido das Cinzas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Se não fosse a Igreja Católica, não existiria a Bíblia como a temos hoje, com os 72 livros canônicos, isto é, inspirados pelo Espírito Santo.

“Foi a Tradição apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados”(DV 8; CIC,120).

Portanto, sem a Tradição da Igreja não teríamos a Bíblia. Santo Agostinho dizia: “Eu não acreditaria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja Católica”(CIC,119).

Por que a Bíblia católica é diferente da protestante?

Esta tem apenas 66 livros porque Lutero e, principalmente os seus seguidores,  rejeitaram os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida), 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4-16; Daniel 3,24-20; 13-14.

No ano 100 o Sínodo de Jâmnia (ou Jabnes):
(1) deveria ter sido escrito na Terra Santa;
(2) escrito somente em hebraico, nem aramaico e nem grego;
(3) escrito antes de Esdras (455-428 a.C.);
(4) sem contradição com a Torá ou lei de Moisés.

Versão dos Setenta: Alexandria – 200 anos antes de Cristo, incluiu os livros que os judeus de Jâmnia, por critérios nacionalistas, rejeitaram. Havia então no início do Cristianismo duas Bíblias judaicas: uma da Palestina (restrita) e a Alexandrina (completa – Versão dos LXX).

Os Apóstolos e Evangelistas optaram pela Bíblia completa dos Setenta (Alexandrina), considerando canônicos os livros rejeitados em Jâmnia.

Das 350 citações do Antigo Testamento que há no Novo, 300 são tiradas da Versão dos Setenta, o que mostra o uso da Bíblia completa pelos apóstolos.

Verificamos também que nos livros do Novo Testamento há citações dos livros que os judeus nacionalistas da Palestina rejeitaram. Por exemplo: Rom 1,12-32 se refere a Sb 13,1-9;  Rom 13,1 a  Sb 6,3;  Mt 27,43 a Sb 2, 13.18; Tg 1,19 a Eclo 5,11;  Mt 11,29s a Eclo 51,23-30;  Hb 11,34 a 2 Mac 6,18; 7,42;  Ap 8,2 a Tb 12,15.

Nos mais antigos escritos dos santos Padres da Igreja (patrística) os livros rejeitados pelos protestantes (deutero-canônicos) são citados como Sagrada Escritura.

São Clemente de Roma, Papa, no ano de 95 escreveu a Carta aos Coríntios, citando Judite, Sabedoria, fragmentos de Daniel, Tobias e Eclesiástico; livros rejeitados pelos protestantes.

Pastor de Hermas, no ano 140, faz amplo uso de Eclesiástico, e do 2 Macabeus;

Santo Hipólito (†234), comenta o Livro de Daniel com os fragmentos deuterocanônicos rejeitados pelos protestantes, e cita como Sagrada Escritura Sabedoria, Baruc, Tobias, 1 e 2 Macabeus.

Vários Concílios confirmaram isto: os Concílios regionais de Hipona (ano 393); Cartago II (397), Cartago IV (419), Trulos (692). Principalmente os Concílios ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870).

Lutero, ao traduzir a Bíblia para o alemão, traduziu também os sete livros (deuterocanônicos) na sua edição de 1534, e as Sociedades Biblícas protestantes, até o século XIX incluíam os sete livros nas edições da Bíblia.

“Pela Tradição torna-se conhecido à Igreja o Cânon completo dos livros sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nelas cada vez mais profundamente compreendidas  e  se fazem sem cessar, atuantes.” (DV,8).

A Bíblia não define o seu catálogo; isto é, não há um livro da Bíblia que diga qual é o índice dela. Assim, este só pode ter sido feito pela Tradição dos apóstolos, pela tradição oral que de geração em geração chegou até nós.

A Vulgata – O Papa São Dâmaso (366-384), no século IV, pediu a S.Jerônimo que fizesse uma revisão das muitas traduções latinas que havia da Bíblia. São Jerônimo revisou o texto grego do Novo Testamento e traduziu do hebraico o Antigo Testamento, dando origem ao texto latino chamado de Vulgata, usado até hoje.

terça-feira, 2 de agosto de 2016


Frei Marcos Tavares Oliveira, ofm.
Frade Menor da Província do Santíssimo Nome de Jesus do Brasil.
Estudante de Teologia.

A Igreja no Brasil celebra neste mês de agosto, o mês das vocações. Mas o que é vocação? O termo vocação vem do latim, vocare, que significa chamar. Também entendemos por vocação a disposição natural e espontânea que orienta uma pessoa no sentido de uma atividade, uma função ou profissão; pendor, propensão, tendência. Vocação, portanto é CHAMADO e tal chamado exige uma RESPOSTA. 

“Um dia, como qualquer outro dia, o Senhor me criou para uma grande missão.” Nosso primeiro chamado é promover e servir a vida - a nossa própria, a do próximo e da Casa Comum – cada pessoa com sua forma e seu jeito diferente. Uns são chamados a dar o seu sim nos ministérios ordenados: diáconos, padres e bispos. Outros são chamados a dar seu sim constituindo famílias: nossos pais e mães. Outros a dar seu sim no seguimento do Cristo pobre e obediente pela profissão dos conselhos evangélicos: os religiosos e as religiosas. “Onde estão os religiosos, existe alegria”, afirma e desafia papa Francisco.

 Outros, porém também são chamados a dar o seu sim na vida cotidiana, na catequese, em nossos grupos e pastorais, na animação de nossas comunidades. São nossos leigos e leigas, presença firme e animadora.

Todos somos chamados e chamadas para uma grande missão. Cabe a cada um, a cada uma de nós estarmos atentos aos apelos de Cristo que nos chama através dos sinais dos tempos de formas diversas a nos colocarmos ao seu serviço e ao serviço dos irmãos e irmãs em sua Igreja e no mundo.

Você já deu a sua resposta ao chamado do Senhor? Está ajudando  outros também a dar sua resposta?

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Grande anunciador do Reino e denunciador dos pecados, ele foi preso por não concordar com as atitudes pecaminosas de Herodes

Com muita alegria, a Igreja, solenemente, celebra o nascimento de São João Batista. Santo que, juntamente com a Santíssima Virgem Maria, é o único a ter o aniversário natalício recordado pela liturgia.

São João Batista nasceu seis meses antes de Jesus Cristo, seu primo, e foi um anjo quem revelou seu nome ao seu pai, Zacarias, que há muitos anos rezava com sua esposa para terem um filho. Estudiosos mostram que possivelmente depois de idade adequada, João teria participado da vida monástica de uma comunidade rigorista, na qual, à beira do Rio Jordão ou Mar Morto, vivia em profunda penitência e oração.

Pode-se chegar a essa conclusão a partir do texto de Mateus: “João usava um traje de pêlo de camelo, com um cinto de couro à volta dos rins; alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre”. O que o tornou tão importante para a história do Cristianismo é que, além de ser o último profeta a anunciar o Messias, foi ele quem preparou o caminho do Senhor com pregações conclamando os fiéis à mudança de vida e ao batismo de penitência (por isso “Batista”).

Como nos ensinam as Sagradas Escrituras: “Eu vos batizo na água, em vista da conversão; mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu: eu não sou digno de tirar-lhe as sandálias; ele vos batizará no Espírito Santo” (Mateus 3,11).

Os Evangelhos nos revelam a inauguração da missão salvífica de Jesus a partir do batismo recebido pelas mãos do precursor João e da manifestação da Trindade Santa. São João, ao reconhecer e apresentar Jesus como o Cristo, continuou sua missão em sentido descendente, a fim de que somente o Messias aparecesse.

Grande anunciador do Reino e denunciador dos pecados, ele foi preso por não concordar com as atitudes pecaminosas de Herodes, acabando decapitado devido ao ódio de Herodíades, que fora esposa do irmão deste [Herodes], com a qual este vivia pecaminosamente.

O grande santo morreu na santidade e reconhecido pelo próprio Cristo: “Em verdade eu vos digo, dentre os que nasceram de mulher, não surgiu ninguém maior que João , o Batista” (Mateus 11,11).

São João Batista, rogai por nós!

segunda-feira, 30 de maio de 2016

É frequente a acusação, no âmbito da religião, de que as imagens configurem “idolatria”. No entanto, na própria Bíblia encontramos exemplos de imagens que nada têm a ver com ídolos.

Querubins sobre a Arca da Aliança (cf. Êxodo 25, 18):

– À esquerda, as imagens dos Querubins sobre a Arca da Aliança, conforme Êxodo 25,18.

– Diante da Arca com as imagens, o Santo Rei Davi se rejubila e salmodia (2 Sm 6, 5-6)

– Era do meio dessas imagens que Deus falava a Moisés (Ex 25,22).

Jesus Crucificado:

– À direita, Jesus suspenso em sua Cruz dando cumprimento a mais uma “figura bíblica” que lhe diz respeito: a da imagem da serpente de bronze do deserto (Num 21, 8; Jo 3, 14)

Daí a afirmação de São Paulo: “Cumpre que nos gloriemos na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6, 14)

A Bíblia manda fazer imagens

1 – Que são imagens? São, em geral, representações esculturais de pessoas de qualquer natureza, ou de conceitos morais. Por exemplo, as imagens dos Querubins, de Moisés, da Liberdade etc.

2 – E as imagens sagradas, o que são? São representações de Santos, de Anjos, da Virgem Maria, de Jesus etc.

3 – Quem mandou fazer imagens? Foi o próprio Deus, conforme a Bíblia nos ensina. Deus mandou fazer imagens de querubins (anjos) para a Arca da Aliança (Ex 25,18). A Arca da Aliança com os querubins ficava no lugar mais sagrado do Templo, o “Santo dos Santos”, que, uma vez por ano o pontífice aspergia com o sangue das vítimas imoladas a Deus (Hb 9,1 a 7). Também Salomão encheu de imagens o Templo (1 Reis 6, 23 a 29), e Deus aprovou (1 Reis 8,6 a 11).

4 – Para que servem as imagens? Para lembrar os Anjos, os Santos e o próprio Deus. É o que também ensina a Bíblia. No Livro dos Números, 21, 8, Deus mandou Moisés fazer e levantar num poste de madeira uma serpente de bronze e disse que quem a fitasse ficaria curado das mordeduras das serpentes. E Jesus se referiu a esse fato como sendo uma “figura” da sua crucificação (Jo 3,14). Os falsos crentes, no entanto, detestam a Cruz, assim como Satã também a detesta. Escutemos a Bíblia: “Nós, porém, pregamos a Cristo crucificado” (1 Cor 1,23).

5 – Então era a serpente que curava? Não. Era Deus. Mas a imagem da serpente serviu para lembrar a ofensa feita a Deus; serviu, em suma, para lembrar a Deus.

6 – E a imagem de Cristo na Cruz? Ela lembra muitíssimo mais: lembra o pecado, a Redenção pela Cruz, o amor de Cristo por nós. Este é o papal das imagens: ajudar-nos a pensar em Deus, a ir a Deus.

7 – Para que mais servem as imagens? Elas contribuem para dar aos lugares de culto um aspecto sagrado e convidam ao recolhimento e à oração (Ex 25,22; 1 Reis 6,23 a 28). Por isso, os querubins da Arca da Aliança não eram simples adornos: eles lembravam ainda a mediação secundária dos Anjos (Hb 1,14) e integravam os objetos do culto. Além desses casos, a Bíblia está cheia de “imagens” e “quadros” que o Artista Divino “pintou” com letras divinas. Esses quadros inspiraram os artistas humanos em seus lindos painéis, esculturas e imagens. Ainda a respeito da serpente de bronze: para que ela continue a ser símbolo da Paixão de Cristo, não importa o fato de o rei Ezequias tê-la destruído cerca de cinco séculos depois (2 Reis 18,4). O ato de Moisés, levantando-a em um poste por ordem de Deus, foi aprovado por Jesus dois mil anos depois. Ela conserva todo o seu valor simbólico, apesar de ter sido destruída.

8 – Nós, católicos, adoramos as imagens? Não. Quem o afirma não entende o catolicismo, ou mente e age contra a Bíblia.

9 – Nós veneramos as imagens. Mas por quê? Porque elas são representações de pessoas santas e amigas de Deus, ou do próprio Deus. E porque inspiram amor às virtudes e levam à imitação das pessoas santas que representam. Por isso, as imagens sagradas são muito úteis. Nada há de idolatria nisto. É semelhante a essa, também, a razão pela qual respeitamos e veneramos a bandeira nacional: ela simboliza a pátria e inspira o patriotismo.

10 – O que, então, a Bíblia condena? A Bíblia condena os falsos deuses e seus ídolos, como os “deuses mudos” (Sl 134, 15 a 17) e as “imagens e esculturas de coisas do céu, da terra e das águas” (Ex 20, 3-5). Trata-se dos ídolos que os pagãos faziam para representar os seus falsos deuses (Rm 1,23). De fato, os gentios antigos adoravam como “deuses do céu” certos astros (Júpiter, Vênus etc.); “da terra”, certas aves e quadrúpedes; “das águas”, certos anfíbios e répteis (Ex 32, 1-6; Rom. 1,23). Para os egípcios, por exemplo, o crocodilo era um animal sagrado. Quem confunde as abominações dos gentios com as sagradas imagens injuria a Bíblia e a torna contraditória, afirmando uma coisa em um lugar e negando essa mesma coisa em outro.

11 – Quem é contra as imagens que a Santa Igreja venera não é só contra a Bíblia. É também contra o bom senso. Não podemos sequer pensar sem formar imagens em nossa mente. O uso de imagens é conatural à nossa forma de entender a existência e de comunicá-la; é um modo natural de aquecermos o coração preservando a imagem daqueles a quem amamos, como fazemos com os retratos dos pais, filhos, familiares e amigos.

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A partir dos “Folhetos Católicos”, via blog Tradição Católica

domingo, 22 de maio de 2016

O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. Deus se revelou como Pai, Filho e Espírito Santo. Foi Nosso Senhor Jesus Cristo quem nos revelou este mistério. Ele falou do Pai, do Espírito Santo e d’Ele mesmo como Deus. Logo, não é uma verdade inventada pela Igreja, mas revelada por Jesus. Não a podemos compreender, porque o Mistério de Deus não cabe em nossa cabeça, mas é a verdade revelada.

Santo Agostinho (†430) dizia que: “O Espírito Santo procede do Pai enquanto fonte primeira e, pela doação eterna deste último ao Filho, do Pai e do Filho em comunhão” (A Trindade, 15,26,47).

A Trindade é Una. “Não professamos três deuses, mas um só Deus em três Pessoas: “A Trindade consubstancial” (II Conc. Constantinopla, DS 421). “O Pai é aquilo que é o Filho, o Filho é aquilo que é o Pai, o Espírito Santo é aquilo que são o Pai e o Filho, isto é, um só Deus por natureza” (XI Conc. Toledo, em 675, DS 530). “Cada uma das três pessoas é esta realidade, isto é, a substância, a essência ou a natureza divina” (IV Conc. Latrão, em 1215, DS 804).

A Profissão de Fé do Papa Dâmaso diz: “Deus é único, mas não solitário” (Fides Damasi, DS 71). “Pai”, “Filho”, “Espírito Santo” não são simplesmente nomes que designam modalidades do ser divino, pois são realmente distintos entre si: “Aquele que é Pai não é o Filho, e aquele que é o Filho não é o Pai, nem o Espírito Santo é aquele que é o Pai ou o Filho” (XI Conc. Toledo, em 675, DS 530). São distintos entre si por suas relações de origem: “É o Pai que gera, o Filho que é gerado, o Espírito Santo que procede” (IV Conc. Latrão, e, 1215, DS 804).

A Igreja ensina que as Pessoas divinas são relativas umas às outras. Por não dividir a unidade divina, a distinção real das Pessoas entre si reside unicamente nas relações que as referem umas às outras:
“Nos nomes relativos das Pessoas, o Pai é referido ao Filho, o Filho ao Pai, o Espírito Santo aos dois; quando se fala destas três Pessoas, considerando as relações, crê-se todavia em uma só natureza ou substância” (XI Conc. Toledo, DS 675). “Tudo é uno [n’Eles] lá onde não se encontra a oposição de relação” (Conc. Florença, em 1442, DS 1330). “Por causa desta unidade, o Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo, todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho” (Conc. Florença, em 1442, DS 1331).

Aos Catecúmenos de Constantinopla, S. Gregório Nazianzeno (330-379), “o Teólogo”, explicava:

“Antes de todas as coisas, conservai-me este bem depósito, pelo qual vivo e combato, com o qual quero morrer, que me faz suportar todos os males e desprezar todos os prazeres: refiro-me à profissão de fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo. Eu vo-la confio hoje. É por ela que daqui a pouco vou mergulhar-vos na água e vos tirar dela. Eu vo-la dou como companheira e dona de toda a vossa vida. Dou-vos uma só Divindade e Poder, que existe Una nos Três, e que contém os Três de maneira distinta. Divindade sem diferença de substância ou de natureza, sem grau superior que eleve ou grau inferior que rebaixe […]. A infinita conaturalidade é de três infinitos. Cada um considerado em si mesmo é Deus todo inteiro […]. Deus os Três considerados juntos. Nem comecei a pensar na Unidade, e a Trindade me banha em Seu esplendor. Nem comecei a pensar na Trindade, e a unidade toma conta de mim (Or. 40,41).

O primeiro Catecismo, chamado “Didaqué”, do ano 90 dizia:
“No que diz respeito ao Batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente. Se não houver água corrente, batizai em outra água; se não puder batizar em água fria, façais com água quente. Na falta de uma ou outra, derramai três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Didaqué 7,1-3).

São Clemente de Roma, Papa no ano 96, ensinava: “Um Deus, um Cristo, um Espírito de graça” (Carta aos Coríntios 46,6). “Como Deus vive, assim vive o Senhor e o Espírito Santo” (Carta aos Coríntios 58,2).

Santo Inácio, bispo de Antioquia (†107), mártir em Roma, afirmava: “Vós sois as pedras do templo do Pai, elevado para o alto pelo guindaste de Jesus Cristo, que é a sua cruz, com o Espírito Santo como corda” (Carta aos Efésios 9,1).

“Procurai manter-vos firmes nos ensinamentos do Senhor e dos Apóstolos, para que prospere tudo o que fizerdes na carne e no espírito, na fé e no amor, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, unidos ao vosso digníssimo bispo e à preciosa coroa espiritual formada pelos vossos presbíteros e diáconos segundo Deus. Sejam submissos ao bispo e também uns aos outros, assim como Jesus Cristo se submeteu, na carne, ao Pai, e os apóstolos se submeteram a Cristo, ao Pai e ao Espírito, a fim de que haja união, tanto física como espiritual” (Carta aos Magnésios 13,1-2).

São Justino, mártir no ano 151, escreveu essas palavras ao imperador romano Antonino Pio: “Os que são batizados por nós são levados para um lugar onde haja água e são regenerados da mesma forma como nós o fomos. É em nome do Pai de todos e Senhor Deus, e de Nosso Senhor Jesus Cristo, e do Espírito Santo que recebem a loção na água. Este rito foi-nos entregue pelos apóstolos” (I Apologia 61).

São Policarpo de Esmirna, que foi discípulo de S. João evangelista, mártir no ano 156, declarou: “Eu te louvo, Deus da Verdade, te bendigo, te glorifico por teu Filho Jesus Cristo, nosso eterno e Sumo Sacerdote no céu; por Ele, com Ele e o Espírito Santo, glória seja dada a ti, agora e nos séculos futuros! Amém” (Martírio de Policarpo 14,1-3).

Teófilo de Antioquia, ano 181, confirmou: “Igualmente os três dias que precedem a criação dos luzeiros são símbolo da Trindade: de Deus [=Pai], de seu Verbo [=Filho] e de sua Sabedoria [=Espírito Santo]” (Segundo Livro a Autólico 15,3).

S. Irineu de Lião, ano 189, afirmou: “Com efeito, a Igreja espalhada pelo mundo inteiro até os confins da terra recebeu dos apóstolos e seus discípulos a fé em um só Deus, Pai onipotente, que fez o céu e a terra, o mar e tudo quanto nele existe; em um só Jesus Cristo, Filho de Deus, encarnado para nossa salvação; e no Espírito Santo que, pelos profetas, anunciou a economia de Deus […]” (Contra as Heresias I,10,1).

“Já temos mostrado que o Verbo, isto é, o Filho esteve sempre com o Pai. Mas também a Sabedoria, o Espírito estava igualmente junto d’Ele antes de toda a criação” (Contra as Heresias IV,20,4).

Tertuliano, escritor romano cristão, no ano 210: “Foi estabelecida a lei de batizar e prescrita a fórmula: ‘Ide, ensinai os povos batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo'” (Do Batismo 13).

E o Concílio de Nicéia, ano 325, confirmou toda essa verdade:

“Cremos […] em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Pai como Unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, por quem foi feito tudo que há no céu e na terra. […] Cremos no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai, com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o qual falou pelos Profetas” (Credo de Nicéia).

Felipe Aquino

terça-feira, 19 de abril de 2016

Preceito é o mesmo que lei, regra. “Missa de preceito” é uma missa obrigatória, que o padre tem a obrigação de celebrar, e da qual todo católico tem a obrigação de participar, de acordo com o terceiro mandamento da lei de Deus (“Guardar domingos e festas de guarda”) e o primeiro mandamento da lei da Igreja (“Participar da missa inteira nos domingos e festas de guarda”). “Festas de guarda” é o mesmo que “festas de preceito”.

É obrigatório, portanto, participar da missa aos domingos, e também nas outras festas de preceito que não caem no domingo. Antigamente havia muitos desses chamados “dias santos de guarda”, mas, atualmente, a maior parte das festas de preceito foi transferida para o domingo mais próximo, talvez porque, com a crescente prevalência dos interesses econômicos sobre os interesses espirituais, a existência de tantos feriados religiosos tornou-se incômoda para a sociedade...

Fora os domingos, existem hoje apenas quatro “dias santos de guarda” na liturgia católica: a festa de Santa Maria, Mãe de Deus, no dia 1º de janeiro; a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi), na quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade, que se segue ao domingo de Pentecostes; a solenidade da Assunção de Nossa Senhora, no dia 8 de dezembro; e o Natal do Senhor, no dia 25 de dezembro.

Além da obrigatoriedade da missa, o “preceito” também exige que, na missa, seja seguida a liturgia própria da festa em questão. Por exemplo, no dia de Corpus Christi, cuja data é móvel, não se celebra a missa correspondente a esse dia no calendário do tempo comum, mas sim a liturgia própria dessa solenidade.

Existe uma hierarquia entre os diversos tipos de celebração litúrgica: segundo sua importância, elas são denominadas solenidade, festa ou memória.

O capítulo II das “Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário” (1969) especifica as regras para a precedência litúrgica de cada dia. Explica, por exemplo, que o domingo, por ser uma celebração especialmente importante, só “cede” sua liturgia própria para as solenidades e festas do Senhor. Foi o que ocorreu com os antigos “dias santos” que tiveram sua solenidade transferida para o domingo. E se uma solenidade móvel, como o Natal, cair num domingo, a liturgia da missa será a do Natal, e não a do domingo. Mas, no caso dos domingos do Advento, da Quaresma e da Páscoa, a liturgia dominical tem precedência sobre qualquer outra festa. Por isso, se o dia 8 de dezembro cair num domingo, a solenidade da Assunção de Nossa Senhora será transferida para sábado.

As memórias são as festas dos santos, e podem ser obrigatórias ou facultativas. Para os santos de importância universal a memória é obrigatória em toda a Igreja, e para os demais ela é facultativa, ou obrigatória em âmbito local, como no caso dos padroeiros das paróquias, cidades ou países. A festa de Frei Galvão certamente será sempre celebrada no Brasil e de forma especial no Estado de São Paulo, mas não necessariamente em outros países, e a festa de Santa Paulina será obrigatoriamente celebrada em Nova Trento, mas não necessariamente em outros locais. Já São José, por exemplo, é celebrado universalmente, assim como São Pedro e São Paulo.

A obrigatoriedade da celebração da memória de um santo não significa que aquele seja um dia de preceito, com participação obrigatória na missa. Significa que as missas ou ofícios que forem celebrados naquele dia devem, obrigatoriamente, seguir a liturgia específica da memória do santo em questão. Em alguns casos há leituras próprias, e, em outros, apenas orações próprias.

Não se usa em liturgia o termo “missa facultativa”, e sim, “memória facultativa”. Não existe nenhum dia em que a celebração da missa seja facultativa (embora exista um dia – a sexta-feira santa – em que não se celebra nenhuma missa), mas a participação dos fiéis na missa é facultativa em dias que não sejam de preceito.

Missas votivas são missas que celebram os mistérios de Cristo, de Nossa Senhora ou a memória dos santos, mas em dias escolhidos livremente, fora do calendário normal – desde que esse dia não seja domingo, nem outro dia de preceito ou de memória obrigatória. É um recurso muito usado, por exemplo, por pessoas que desejam pagar promessas, “encomendando” uma missa em ação de graças a determinado Santo.

Fonte: Vida Celebrada

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Com quatro semanas antecedendo o Natal, o Advento, próprio do Ocidente, tem sua origem desde o século IV.

É um tempo que nos coloca em permanente expectativa da vinda, da manifestação de Deus e de seu Reino em nossa realidade. Abre-nos para o encontro com o Senhor que vem nos acontecimentos da vida, particularmente, no momento celebrativo, comemorando o Senhor que veio e fazendo-nos dar um passo à frente ao encontro do Senhor que virá glorioso, quando seu Reino estiver plenamente estabelecido entre nós.

Essa manifestação se dá em dois aspectos: a manifestação em nossa carne ao nascer, que constitui sua primeira vinda, e sua manifestação gloriosa, no fim dos tempos, sua segunda vinda.

Este duplo sentido determina a organização do Advento: o Advento escatológico, que vai do primeiro domingo do Advento ao dia 16 de dezembro e cuja liturgia nos inflama para a vinda final de Cristo; o Advento natalício, como preparação mais imediata para a festa do Natal, do dia 17 ao dia 24 de dezembro.

Os textos bíblicos propostos para os domingos deste tempo fazem emergir este duplo caráter do Advento. Assim, o primeiro domingo orienta para a vinda final, o segundo e o terceiro chamam atenção para a vinda cotidiana do Senhor; o quarto domingo prepara-nos para o nascimento de Cristo, ao mesmo tempo apresentando seu sentido e sua história.

Também os textos eucológicos (coletas, prefácios...) acentuam as vindas do Senhor, seja na encarnação, seja na parusia, como juiz e senhor, em íntima relação entre si, como expressão de um único mistério: a Vinda do Senhor e seu Reino, já iniciada mas, aguardando sua plena realização, no final dos tempos.(cf. At 1,11)

Recordamos no Advento a grande verdade de que nossa história, com todos os seus dramas, contradições, conquistas e retrocessos é o lugar da atuação salvífica de Deus, para quem nada é impossível: aterrar vales, aplainar montanhas, fazer florir desertos, fazer conviver leões e cordeiros; transformar armas de guerra em instrumentos de trabalho e cultivo de vida.

Pe. Luiz Renato sj

in: blog Arte, Liturgia e Espiritualidade

domingo, 1 de novembro de 2015

“Alegrando-se todos no Senhor nesta solenidade...”, assim reza a antífona de entrada. É a Igreja militante que honra a Igreja triunfante e presta, à incomensurável multidão de santos que povoam o Reino dos Céus, a homenagem que ela não pode prestar individualmente a cada um deles — como sucede no calendário cristão.

“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”, promete Jesus no sermão da montanha. Quem são os pobres, segundo Jesus? São as “testemunhas de Deus”, para usar uma expressão de Isaías. Com os pobres, apoderaram-se do Reino dos Céus os mansos, os puros de coração, os misericordiosos, os pacíficos, aqueles que sofrem e que têm fome e sede de justiça, em um mundo no qual vige sempre a lei do mais forte. Os perseguidos por causa da justiça e todos quantos são vítimas inocentes da calúnia, da maledicência, da pública ofensa ou do vilipêndio dos manipuladores da opinião pública.

Esses sinais estão em todos os santos que tiveram fé na promessa do Reino dos Céus: a vergonha das violências, dos ultrajes, das torturas e humilhações de que foram alvo, e sobretudo da prova extrema do martírio, da dor física e moral, da aparente derrota do bem e do triunfo dos maus. Os fiéis são convidados a alegrar-se e a exultar com todos esses santos que “passaram à melhor vida”.

A fé nos assegura, diz são Paulo, de que somos realmente filhos de Deus e herdeiros do reino, mas esta realidade não é plenamente completa em nosso corpo de carne. Vivemos na esperança, e esta se torna certeza em razão do que cremos.

A origem dessa festa remonta ao século IV. Em Antioquia, celebrava-se no primeiro domingo depois de Pentecostes. No século VII, a data foi fixada em 13 de maio, Dia da Consagração do Panteão a santa Maria dos Mártires. Naquele dia, fazia-se descer da claraboia da grande cúpula uma chuva de rosas vermelhas. Gregório IV removeu a celebração para o dia 1º de novembro, depois da colheita de outono, quando era mais fácil encontrar alimento para os numerosos peregrinos que, depois dos trabalhos do verão, dirigiam-se em peregrinação à Cidade dos Mártires.

(Retirado do livro "Os Santos e os Beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente", Paulinas Editora)

sábado, 5 de setembro de 2015

Infelizmente, muitas vezes, nos perdemos pelos muitos caminhos deste mundo, porque, por orgulho ou por teimosia, insistimos em andar por onde queremos e não pelo caminho que Deus quer que sigamos. O caminho de Deus pode não ser o mais fácil, ou o mais curto, mas com certeza, Ele nos leva pelos caminhos mais acertados. Como é desagradável em uma longa viagem errarmos o caminho! Incrível, como o lugar desejado nunca parece chegar.

A nossa vida na fé também é assim. Se não nos deixamos guiar por Deus, erramos o caminho, e nos atrasamos para alcançar o que tanto desejamos: a verdadeira felicidade.
É muito fácil rezar com o salmista o salmo 22:

“O Senhor é meu pastor, nada me faltará.
Em verdes prados ele me faz repousar.
Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome.
Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo.
Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça, e transborda minha taça.
A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias”.

No entanto, parece que não é tão fácil assim de viver. Será que estamos deixando que Deus nos guie? Qual voz temos escutado? A voz do nosso egoísmo, a voz do mundo ou a voz do nosso pastor?
Jesus disse: “Eu sou o bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim, como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo 10, 15). Para seguir o Pastor são necessárias duas coisas: Escutar sua voz e confiar, abandonar-se aos seus cuidados.
Para escutar a Deus é preciso intimidade com Ele. Será que temos buscado estar com o Senhor? Com que frequência? Como está a nossa vida de oração? Nossos ouvidos e coração estão atentos aos Seus chamados?
Para abandonar-se é preciso acreditar nisso: Deus nos conduz em nossa caminhada para Ele. É Ele mesmo quem realiza em nós a santificação; não temos poder para guiar a nossa santificação. Só Deus sabe o caminho que temos de trilhar para chegar nela; e Ele nos leva por esse caminho quando nos abandonamos confiantes em Suas mãos.

A nós cabe nos entregar dóceis em Suas mãos como o barro nas mãos do oleiro, como ovelhas nos braços do Pastor, como a criança que é leva pelo pai, segurando em sua mão; sem perguntar o que Ele está fazendo conosco. Isso é abandonar-se em Deus. Nós não sabemos o que precisamos, muito menos qual é o caminho melhor a seguir; só Ele sabe por que nos criou e teceu cada fibra de nosso ser no ventre materno, como diz o Salmo 138.

Padre Joseph Schrijvers, autor de um livro fabuloso intitulado “O Dom de si”, insiste nisso: “Viver cada instante o dom de si, é um ato de amor a Jesus a cada momento, acolhendo sem questionamento, o que o Artista divino está fazendo”. Precisamos aprender a nos abandonar nos braços do Pai a cada dia. É um exercício de fé.

Podemos comparar o abandonar-se em Deus com o que Michelangelo fazia com um bloco de pedra. Ele dizia aos seus alunos, ao ensiná-los a trabalhar com arte escultural: “Aí dentro tem um anjo, vamos colocá-lo para fora. Vamos tirar com o cinzel, carinhosamente, o que está sobrando.” E o mármore precisa ficar quietinho e aceitar todas as batidas do Artista. É a obra de Deus em nós. Só um coração que ama a Deus entende e aceita tudo isso.

Engraçado como até na gramática não costumamos usar “abandonar-se” como verbo reflexivo, ou seja, quando o sujeito pratica e recebe uma ação. Não é comum abandonar a si mesmo. No entanto, na caminhada na fé, a linguagem é diferente. A gramática de Deus é outra. Para fazermos a vontade de Deus, e não nos perdemos pelo caminho, é preciso abandonar a nós mesmos para confiar única e exclusivamente nas mãos de Deus que é Pai, é Pastor. Isso exige de nós atitudes de fé, confiança, humildade e perseverança, para que diante das muitas adversidades que enfrentamos na vida, não esmoreçamos; ao contrário, que possamos sentir a verdadeira paz de quem realmente acredita que Deus está cuidando de tudo. Pois um bom Pastor, jamais deixaria sua ovelha se perder.

Felipe Aquino

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Há poucos dias alguém que me perguntava o que havia de bonito em ser católico. Comecei pelo “Senhor tem piedade” e terminei pelo “Cordeiro que tiras o pecado!” Acentuei a doutrina do perdão, dos bem aventurados e salvos, dos perdoados e perdoadores, a universalidade, a busca permanente da unidade, o desejo sincero de auto-superação, os sacramentos e a eucaristia. Listei pelo menos cinqüenta valores!

Posso imaginar o bonito de ser judeu, islâmico, ortodoxo ou evangélico. Se acho bonito ser católico, porque não seria bonito para eles ser membros das religiões e igrejas nas quais se sentem mais próximos de Deus? Um ex-crente afirmava, num artigo recente, que, agora, sua vida era mais livre e mais bonita. O ateísmo o libertara! Como não estou na pele dele, não o julgo. Sei de crentes e ateus felizes e de crentes e ateus infelizes. Ele parecia estar feliz! Bom para ele e bom para mim, que também sou feliz!

Mas não é tudo assim tão automático! Não é por comprar novos aros e novas lentes que enxergarei melhor. Não é por ir ao culto e sentir emoções que me torno automaticamente bom católico. Mas se as lentes me ajudarem a sair da minha miopia e, se a intervenção a laser me corrigir as distorções, certamente verei melhor e se tiver uma boa visão de mundo e de pessoa serei mais feliz. Isto de ser feliz tem muito a ver com as visões e abrangências do coração.

A religião pode ajudar oferecendo serenidade, posto que os serenos costumam ser mais felizes. Minha igreja me oferece isto! Sinto pelos outros que não acham pedagogia e perdão no catolicismo. Eu acho!

Aqui entram as religiões e igrejas bonitas! Vão além da estética de seus cultos e da ousadia de suas promessas e milagres. Jesus caracteriza isso com os conceitos de mansidão, coragem, abertura de coração, defesa firme da vida em todos os seus estágios! Chega-se ao céu através do que se faz pela vida na Terra! Corre o risco de perder o céu quem brinca de ser dono da vida e da verdade!

Proclamo que é bonito ser católico não apenas por ver o que Deus fez e faz por meio dos seus santos, nem apenas pelos santos que ele fez e faz. Os santos são corolários. Essencial é a busca da justiça e da paz! Proclamo que é bonito ser católico não apenas pelas nossas doutrinas, que acho elevadas e exigentes e até difíceis de cumprir, mas pela compaixão e misericórdia implícitas nos cultos e nos sacramentos que celebramos. Proclamo, ainda, que é bonito ser católico quando olho para o Vaticano com suas enormes colunas em curva que parecem dois braços abertos e sem portões. Entra quem quer e sai quem quer para ouvir nossa mensagem proclamada nas quartas feiras, pelo Sumo Fazedor de Pontes, o Papa.

Em cima daquelas colunas há inúmeras imagens de santos de ontem a lembrar aos de baixo, candidatos de hoje à santidade de sempre, que sem abertura de coração e de mente não vai dar certo! Não, num mundo carente de diálogo e cada dia mais distante dele!

Mais: gosto da coragem dos papas e dos bispos que não têm medo de dizer o que deve ser dito e conseguem dizê-lo de um jeito diplomático e humano. Diria muito mais, mas foi um pouco do que eu disse!

Fonte: padrezezinhoscj.com

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Muitas pessoas ficam desconcertadas ao verem o mal campear no mundo, sem que Deus pareça tomar parte na angústia dos que são vítimas da violência e da injustiça. Às vezes parece que Deus se torna mudo diante do nosso sofrimento; mas não é assim.

Alguém já disse que “Deus não fala, mas que tudo fala de Deus”. Isto é, Deus fala pela Revelação e pela vida, mas esta linguagem tem de ser decifrada. Seus silêncios aparentes são sábios e nos obrigam a exercitar o ouvido da alma, e criar novas antenas e ouvidos interiores, para ouvir a sua voz. Não é que Deus não fale, somos nós que não captamos sua palavra.

Deus não é indiferente diante dos acontecimentos deste mundo. Sempre pesou sobre a mente dos homens a aparente indiferença de Deus diante do desenrolar dos acontecimentos neste mundo. O povo sente-se, por vezes, desanimado e propenso a “fazer como todo o mundo faz”, visto que ser reto e digno parece custar muito caro e não trazer proveito. Até o salmista tem a tentação de agir como os maus (…), mas depois entende a sua triste sorte:

“Por pouco meus pés tropeçavam; um nada, e meus passos deslizavam. Porque invejei os arrogantes, vendo a prosperidade dos ímpios. Para eles não existem tormentos, sua aparência é sadia e robusta; a fadiga dos mortais não os atinge, não são molestados como os outros (…).

Refleti para compreender, e que fadiga era isto aos meus olhos! Até que entrei nos santuários divinos: entendi o destino deles! De fato, tu os pões em ladeiras, tu os fazes cair em ruínas. Ei-los num instante reduzidos ao terror, deixam de existir, perecem por causa do pavor! (…), Sim, os que se afastam de Ti se perdem (…). Quanto a mim, estar junto de Deus é o meu bem!” (Sl 72, 2-5. 16-19. 27s)

A Bíblia nos mostra que é exatamente nos momentos de maior luta, conflito, desespero e perplexidade que Deus prepara as suas ações mais belas.

A Páscoa cristã e a glória da Ressurreição de Jesus foram precedidas da cruel e dolorosa Paixão do Senhor, que deixou os apóstolos atônitos e perdidos. Mas, na manhã do domingo, ficou claro que o “fracasso” do Mestre se transformara em inacreditável vitória sobre a morte. Então, tudo se fez novo (…). Ele ressuscitou como o Kýrios, o Senhor da vida e da morte; a vida venceu a morte, as trevas foram dissipadas pela luz.

É no silêncio de Deus que o cristão aprende a crescer na fé e na confiança no Senhor. Não sejamos crianças na fé.

Nesse silêncio sagrado somos obrigados a apurar os ouvidos interiores e a criar novas antenas para tentar compreender a vontade de Deus.

É preciso, então, não se deixar afundar na hora da tormenta, mas esperar com fé na Providência divina que não falha. No meio do fogo das tribulações, é preciso continuar a caminhar, ainda que gemendo e chorando, “como se visse o invisível” (Hb 11,27).

Este “avançar na fé” pode ser comparado a um complicado jogo de “quebra-cabeça”; no seu início não temos a menor ideia do quadro a compor, parece que o “quebra-cabeça” não tem solução, a charada é desafiadora; mas, devagar, com paciência, vamos juntando as peças (…) começa a surgir alguma coisa. Ao se combinar as peças começa a surgir o quadro, e então, vai ficando cada vez mais fácil, até o fim.

A vontade de Deus para nós é assim; os fatos da vida, isolados, parecem não ter sentido, mas, quando os vamos juntando na fé e analisando-os na esperança, vemos a sua mensagem. Às vezes é preciso olhar peça por peça, sem saber qual é a próxima que virá. Mas é preciso ir em frente, caminhar com perseverança.

A grande Edith Stein disse uma bela verdade: “Não sei para onde Deus me leva, mas sei que é Ele me conduz”. Isto basta.

Não podemos esperar que a mensagem esteja decifrada para começar a caminhar; assim não começaríamos nunca a viagem. Nunca encontraremos um discurso de Deus para nós, pronto e claro, e nem um caminho nitidamente traçado; não, Deus nos conduz no escuro da fé, onde Ele vai nos falando durante o caminho, como fez com os discípulos de Emaús. E, se não caminharmos, não ouviremos a Sua voz.
Por que Ele age assim? Na sua sabedoria infinita Ele tem motivos para agir assim conosco; logo, cabe a nós não nos calarmos diante Dele, mas responder na fé e na oração incessante.

“O justo vive da fé” (Rm 1,17; Gl 3,11; Hb 10,38). Mais do que a nossa vitória, Deus espera a nossa luta determinada, com fé e perseverança.

Ninguém conhece os caminhos da Providência divina, por onde Ele passa, o que quer com este golpe, o que está fazendo com esta aflição, morte, fracasso, desemprego (…).

Muitas Ordens religiosas foram provadas terrivelmente até se firmarem. Mas, porque os seus fundadores não desanimaram e não desistiram, a Igreja se tornou rica e santa por causa delas.
Deus não é um ser mudo; Ele se revelou e revelará; se Ele, por vezes, parece calar-se, Ele o faz sábia e providencialmente.

Professor Felipe Aquino

sábado, 8 de agosto de 2015

Sonora Louise Smart Dodd, de Washington, foi quem primeiro propôs a ideia de comemorar a data, em 1909. Ela queria um dia especial para homenagear o pai, William Smart, um veterano da guerra civil que ficou viúvo quando sua esposa teve o sexto bebê. Já adulta, Sonora pôde perceber o sacrifício do pai para criar sozinho os seis filhos. Por essa razão, decidiu homenageá-lo e criar um dia para os pais. A data escolhida foi 5 de junho, aniversário de Smart.

Oficialmente,  o primeiro Dia dos Pais foi comemorado em 19 de junho de 1910, em Spokane, Washington. A rosa foi escolhida como a flor oficial do evento. Os pais vivos deviam ser homenageados com rosas vermelhas; os falecidos, com flores brancas. Pouco tempo depois, a comemoração já havia se espalhado por outras cidades americanas. Em 1972, o então presidente Richard Nixon proclamou oficialmente o terceiro domingo de junho como Dia dos Pais.

No Brasil, a data é comemorada no segundo domingo de agosto e foi festejada pela primeira vez no dia 14 de agosto de 1953. A comemoração foi importada dos EUA pelo publicitário Sylvio Bhering e teve sua data alterada de junho para agosto por motivos comerciais.

Pelo menos onze países também comemoram o Dia dos Pais à sua maneira e tradição.

Itália e Portugal – A festividade acontece no mesmo dia de São José, 19 de março. Apesar da ligação católica, essa data ganhou destaque por ser comercialmente interessante.

Reino Unido – No Reino Unido, o Dia dos Pais é comemorado no terceiro domingo de junho, sem muita festividade. Os ingleses não costumam se reunir em família, como no Brasil. É comum os filhos agradarem os pais com cartões, e não com presentes.

Argentina – A data na Argentina é festejada no terceiro domingo de junho com reuniões em família e presentes.

Grécia – Na Grécia, essa comemoração é recente e surgiu do embalo do Dia das Mães. Lá se comemora o Dia dos Pais em 21 de junho.

Portugal – A data é comemorada no dia 19 de março, mesmo dia que São José. Surgiu, porque é comercialmente interessante. Os portugueses não dão muita importância a essa comemoração.

Canadá – O Dia dos Pais canadense é comemorado no dia 17 de junho. Não há muitas reuniões familiares, porque ainda é considerada uma data mais comercial.

Alemanha – Na Alemanha, não existe um dia oficial aos pais. Os papais alemães comemoram seu dia na Ascensão de Jesus (data variável conforme a Páscoa) . Eles costumam sair às ruas para andar de bicicleta e fazer piquenique.

Paraguai – A data é comemorada no segundo domingo de junho. Lá, as festas são como no Brasil, com reuniões em família e presentes.

Peru – O Dia dos Pais é comemorado no terceiro domingo de junho. Não é uma data muito especial para eles.

Austrália – A data é comemorada no segundo domingo de setembro com muita publicidade.

África do Sul – A comemoração acontece no mesmo dia do Brasil, mas não é nada tradicional.

Rússia – Na Rússia, não existe propriamente o Dia dos Pais. Lá os homens comemoram seu dia em 23 de fevereiro, chamada de “o dia do defensor da pátria” (Den Zaschitnika Otetchestva).

O significado da palavra ‘pai’ vem do latim pater, a qual designava originalmente toda pessoa que dava origem a outro ser. O Direito Romano, base de nosso ordenamento civil, conferia ao pai o título de paterfamiliae, o cidadão romano chefe de família. Já definiam os romanos que is est pater quem justae nuptiae demonstrant (o pai legítimo é aquele que o matrimônio como tal indica). Nessa condição, todos os seus descendentes a ele se vinculavam sem poder de oposição, onde se incluía a própria esposa.

Da mesma raiz latina encontramos a palavra paternitas, mostrando a qualidade ou o fato de ser pai, designando o liame jurídico que une pai e filho.

Em sentido jurídico, pai é o ascendente masculino de primeiro grau. Eis, portanto, a definição legal. Mas a palavra ‘pai’ não se limita à letra da Lei e surge de formas variadas em nosso dia a dia. ‘Pai’ significa amor, ternura e carinho.

Redação Portal Canção Nova
Tudo o que o homem é, todos seus dons, talentos e habilidades, todo seu conhecimento e técnica adquirida e tudo o que desenvolve durante sua vida só encontrá plena realização se canalizar tudo para o exercício de sua paternidade.

“Assim, também se revela, profundamente, o mistério da masculinidade do homem, isto é, o significado gerador e ‘paterno’ do seu corpo” (São João Paulo II, Teologia do Corpo, catequese nº 120).

Frei Raniero Cantalamessa, pregador oficial do Vaticano, dá-nos uma maior compreensão de paternidade ao nos dizer que, neste mundo, o que mais se aproxima do amor de Deus é o amor humano de pai e mãe. Quanto à figura paterna, ele explicita: “O amor paterno é feito de estímulo e solicitude; o pai quer o filho crescido e levado à plena maturidade”.

Quando olhamos a Sagrada Escritura, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, entendemos como o Pai Celeste nos estimula e nos faz crescer. O Senhor convoca Seus profetas, envia-os à aventura, ao desafio de vida e manda-os sempre ir em direção ao desconhecido para que vençam as barreiras. É solicito com Moisés quando abre o mar vermelho (cf. Ex 14,21ss); pede que Abrão saia da sua terra e vá para um lugar que Ele providenciará (Cf. Gn 12, 1) e estimula seu povo, muitas vezes, quando repete “não temais, pois: eu vos sustentarei a vós, tende ânimo” (cf. Gn 50,21: Ex 14, 13).

Pois bem, o pai terreno é convidado a ser uma figura deste Pai do Céu.

Geralmente, presenciamos o pai colocando o filho num lugar alto, como o galho de uma árvore, e encorajando-o a pular em seus braços. Será mais fácil também ver o pai ensinando um filho a andar de bicicleta ou, pelo menos, será o primeiro a desafiá-lo a se equilibrar sem as rodinhas de apoio.

O mundo, no entanto, está carente de paternidade. Vemos muitos pais ausentes; uns por não assumirem a paternidade; outros, a grande maioria, subtraídos dos lares pelo trabalho.
Até arrisco-me a dizer, dos muitos contatos que tenho com a juventude, ministrando palestras pelo Brasil, que nos intervalos quando converso tanto com os meninos quanto as meninas, percebo que a maioria dos problemas deles – com drogas, sexualidade desregrada, ansiedade e medo de enfrentar a vida – está associada a visão negativa do ser masculino, desde dentro de casa.

Jovens que, muitas vezes, têm roupas de grifes, aparatos de última geração, mas estão sem referência da vida, por falta de palavras de carinho, exemplos e presença paterna, e então buscam refúgio em substâncias e afetos que mascaram o vazio que se instala em seus corações.

Pai, seu filho necessita muito mais de seus ensinamentos de vida, transmitidos por meio de brincadeiras e ocasiões em que puderem estar juntos, do que coisas que seu dinheiro possa lhes comprar.

Lembro-me de meu pai devolvendo o dinheiro a mais que recebeu como troco – isso me faz ser honesto –, ensinando-me a nadar todos os domingos na lagoa. Tudo isso me trouxe a certeza de que sou capaz, e também segurança, pois alguém olha por mim.

Uma vez ouvi: “O filho que recebe todo dinheiro do mundo vai gastá-lo até passar necessidade. O filho que recebe todo amor conquistará o mundo inteiro”.

Que, neste Dia dos Pais, quem receba o melhor presente sejam seus filhos! Dê seu carinho, seu amor e tempo, eles merecem ter tudo o que você é.

Feliz Dia dos Pais!

Texto: Sandro Arquejada / Foto: Daniel Mafra

sábado, 1 de agosto de 2015

“A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para sua colheita!”. Com a citação deste trecho do Evangelho de Mateus, o Arcebispo de Belém (PA), Dom Alberto Taveira, lembra que o Deus dá à comunidade a responsabilidade de rezar para que as vocações sejam despertadas. Por isso, neste mês vocacional, exorta todos a intensificarem suas orações.

“Aqui nasce o primeiro apelo para o mês de agosto, dedicado às vocações. Se são importantes todos os estados de vida na Igreja, desta feita nos permitimos voltar nosso olhar de modo especial à consagração específica de dedicação exclusiva à Igreja e ao Reino de Deus”, escreve o Arcebispo em recente artigo.

Instituído em 1981, na 19ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o mês vocacional é um convite à reflexão sobre as diversas vocações: sacerdotal, religiosa, matrimonial e leiga.

Em seu texto, Dom Taveira destaca que o termo ‘vocação’ se refere às escolhas particulares de cada pessoa, a fim de “dar à própria vida um sentido ideal”, donde surgem “cada estado de vida, a profissão, cada dedicação aos outros pode ser caracterizada como vocação, que lhe dá uma dignidade superior e um valor transcendente”.

Mas, o Prelado ressalta que “a palavra vocação adquire um significado específico quando se trata de uma vocação especial, que vem de Deus diretamente, como um raio fulgurante de luz que ilumina o mais profundo da consciência humana e se expressa numa entrega total da vida ao amor de Deus, que depois se desdobra no amor e no serviço ao próximo”.

Diante disso, observa que há uma necessidade de que a Igreja envie pessoas que se coloquem de maneira livre e voluntária à disposição para evangelizar os demais. “Com que alegria meu olhar se dirige a tantos jovens, rapazes e moças, que têm acolhido o chamado de Deus a esta radicalidade de vida!”.

E, questionando onde estão as vocações, Dom Taveira exorta os sacerdotes a convidarem a comunidade para o seguimento de Cristo. Também incentiva os pais a conversarem com seus filhos sobre esse tema. E, especificamente às crianças, adolescentes e jovens, lança um apelo a ouvirem a voz de Deus. “Pode ser que o ambiente da sociedade não lhe favoreça responder positivamente, mas muito maior do que todos os ventos que correm é a voz de Deus que lhe diz ser este o seu lugar, na dedicação total a ele e ao seu Reino, no coração da Igreja”.

Durante todo o mês de agosto, cada domingo é dedicado a uma vocação específica. O primeiro, ao ministério ordenador, em razão do Dia do Padre, celebrado juntamente com seu padroeiro, São João Maria Vianey, em 4 de agosto; no segundo domingo, quando se comemora o Dia dos Pais, a Igreja se volta para a vocação matrimonial; no terceiro, a vocação à vida consagrada, junto com a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora; no quarto, a vocação laical; e, no caso de haver quinto domingo, celebra-se o Dia do Catequista.

Tendo em vista este primeiro domingo, 2, dedicado aos ministérios ordenados, e o próximo dia 4, memória litúrgica de São João Maria Vianey (o Cura D’Ars), o Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, publicou um artigo por meio do qual cumprimenta todo o clero, unindo-se “às orações por todos os sacerdotes em sua bela missão de santificar o povo de Deus, anunciando o Evangelho e celebrando os mistérios da fé”.

“Como todos os cristãos, os presbíteros estão chamados à salvação (cf. Mt 5,48). Pelo sacramento da Ordem, os presbíteros são configurados com Cristo sacerdote, como ministros da cabeça, para a construção e edificação do seu corpo, que é a Igreja, enquanto cooperadores da Ordem episcopal. Este é o fundamento da vida peculiar dos presbíteros: atuar tal como são, ‘fazendo todo o sacerdote, a seu modo, às vezes da própria pessoa de Cristo’ (Presbyterorum Ordinis, 12) de quem é instrumento”, explica no texto.

Ao fim, Dom Orani constata a todo o clero que “só Cristo basta para nossas vidas!”.

Para rezar pelas vocações, segue a oração vocacional:

“Senhor da messe e pastor do rebanho, faz ressoar em nossos ouvidos teu forte e suave convite: 'Vem e segue-me'! Derrama sobre nós o teu Espírito, que Ele nos dê sabedoria para ver o caminho e generosidade para seguir tua voz. Senhor, que a messe não se perca por falta de operários. Desperta nossas comunidades para a missão. Ensina nossa vida a ser serviço. Fortalece os que querem dedicar-se ao Reino, na vida consagrada e religiosa. Senhor, que o rebanho não pereça por falta de pastores. Sustenta a fidelidade de nossos bispos, padres e ministros. Dá perseverança a nossos seminaristas. Desperta o coração de nossos jovens para o ministério pastoral em tua Igreja. Senhor da messe e pastor do rebanho, chama-nos para o serviço de teu povo. Maria, Mãe da Igreja, modelo dos servidores do Evangelho, ajuda-nos a responder SIM. Amém".

sábado, 18 de julho de 2015

O Catecismo da Igreja diz que “Chamamos de sacramentais os sinais sagrados instituídos pela Igreja, cujo objetivo é preparar os homens para receber o fruto dos sacramentos e santificar as diferentes circunstâncias da vida” (n.1677). Entre os sacramentais, figuram em primeiro lugar as bênçãos (de pessoas, da mesa, de objetos e lugares). Toda bênção é louvor Deus e pedido para obter seus dons. (n.1672)

Os sacramentos produzem seu efeito “ex opere operato”, quer dizer, “pela obra realizada”, é ação direta de Deus; sua validade e eficácia não dependem da santidade do ministro ou do fiel; já  a eficácia dos sacramentais (“ex opere operantes”), “pela ação daquele que opera”, depende da disposição dos que os recebem. Assim, para que haja frutos das graças dos sacramentais, é necessário boa disposição ao recebê-los. É necessário estar na graça de Deus para receber as graças atuais dos sacramentais com maior eficácia.

Entre os sacramentais, estão as bênçãos de modo geral. Vale destacar as bênçãos que dão o Papa, os Bispos e os sacerdotes; os exorcismos; a bênção de reis, abades ou virgens e, em geral, todas as bênçãos sobre coisas santas.

Além das bênçãos temos algumas orações, como as Ladainhas de modo geral (Nossa Senhora, Sangue de Cristo, Espírito Santo, São José, São Miguel, etc.). A água benta; usada em certas unções que se usam em  alguns sacramentos. O pão bento ou outros alimentos santificados pela bênção de um sacerdote ou diácono. As imagens e medalhas sagradas abençoadas, etc.

Os efeitos que produzem os sacramentais recebidos com as disposições necessárias são muitos. Obtêm graças atuais, pela intervenção da Igreja. Perdoam os pecados veniais. Podem perdoar toda pena temporal, devida, pelas indulgências ligadas ao uso dos sacramentais. Obtêm-nos graças para a nossa vida terrena, como a saúde corporal, defesa contra as tempestades, uma viagem bem-sucedida, etc. Além disso nos livram das tentações do demônio ou nos dão forças para vencê-las.

O Concílio Vaticano II disse que “não há uso honesto das coisas materiais que não possa ser dirigido à santificação dos homens e o louvor a Deus.”( Const. Sacrosanctum Concilium, 61).

Tendo em vista os seus efeitos, os sacramentais nos protegem contra a ação do demônio. Especialmente o crucifixo, a água benta, as medalhas, imagens e quadros de Nossa Senhora, dos Anjos e dos Santos, o escapulário de Nossa Senhora do Carmo, o Agnus Dei, etc., nos protegem contra a ação  do Mal quando os usamos e veneramos com fé e devoção. É claro que não podemos fazer um uso supersticioso desses objetos; como se agissem por si mesmos sem a nossa disposição de fé.

De modo especial a Igreja emprega o uso do Rito do exorcismo para expulsar o demônio de alguém que tenha sido possuído por ele.

“Quando a Igreja exige publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a influência do maligno e subtraído a seu domínio, fala-se de exorcismo” (Cat. n. 1674).

No Batismo é realizado o exorcismo na forma simples. “O exorcismo solene, chamado “grande exorcismo”, só pode ser praticado por um sacerdote, com a permissão do bispo. Nele é necessário proceder com prudência, observando estritamente as regras estabelecidas pela Igreja. O exorcismo visa expulsar os demônios ou livrar da influência demoníaca, e isto pela autoridade espiritual que Jesus confiou à sua Igreja”. (n. 1674)

Prof. Felipe Aquino

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A Festa de “Corpus Christi” é a celebração em que solenemente a Igreja comemora o Santíssimo Sacramento da Eucaristia; sendo o único dia do ano que o Santíssimo Sacramento sai em procissão às nossas ruas. Nesta festa os fiéis agradecem e louvam a Deus pelo inestimável dom da Eucaristia, na qual o próprio Senhor se faz presente como alimento e remédio de nossa alma. A Eucaristia é fonte e centro de toda a vida cristã. Nela está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, o próprio Cristo.

A Festa de Corpus Christi surgiu no séc. XIII, na diocese de Liège, na Bélgica, por iniciativa da freira Juliana de Mont Cornillon, (†1258) que recebia visões nas quais o próprio Jesus lhe pedia uma festa litúrgica anual em honra da Sagrada Eucaristia.

Aconteceu que quando o padre Pedro de Praga, da Boêmia, celebrou uma Missa na cripta de Santa Cristina, em Bolsena, Itália, ocorreu um milagre eucarístico: da hóstia consagrada começaram a cair gotas de sangue sobre o corporal após a consagração. Dizem que isto ocorreu porque o padre teria duvidado da presença real de Cristo na Eucaristia.

O Papa Urbano IV (1262-1264), que residia em Orvieto, cidade próxima de Bolsena, onde vivia S. Tomás de Aquino, ordenou ao Bispo Giacomo que levasse as relíquias de Bolsena a Orvieto. Isso foi feito em procissão. Quando o Papa encontrou a Procissão na entrada de Orvieto, pronunciou diante da relíquia eucarística as palavras: “Corpus Christi”.

Em 11/08/1264 o Papa aprovou a Bula “Transiturus de mundo”, onde prescreveu que na 5ª feira após a oitava de Pentecostes, fosse oficialmente celebrada a festa em honra do Corpo do Senhor. São Tomás de Aquino foi encarregado pelo Papa para compor o Ofício da celebração. O Papa era um arcediago de Liège e havia conhecido a Beata Cornilon e havia percebido a luz sobrenatural que a iluminava e a sinceridade de seus apelos.

Em 1290 foi construída a belíssima Catedral de Orvieto, em pedras pretas e brancas, chamada de “Lírio das Catedrais”. Antes disso, em 1247, realizou-se a primeira procissão eucarística pelas ruas de Liège, como festa diocesana, tornando-se depois uma festa litúrgica celebrada em toda a Bélgica, e depois, então, em todo o mundo no séc. XIV, quando o Papa Clemente V confirmou a Bula de Urbano IV, tornando a Festa da Eucaristia um dever canônico mundial.

Em 1317, o Papa João XXII publicou na Constituição Clementina o dever de se levar a Eucaristia em procissão pelas vias públicas. A partir da oficialização, a Festa de Corpus Christi passou a ser celebrada todos os anos na primeira quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade.

Todo católico deve participar dessa Procissão por ser a mais importante de todas que acontecem durante o ano, pois é a única onde o próprio Senhor sai às ruas para abençoar as pessoas, as famílias e a cidade. Em muitos lugares criou-se o belo costume de enfeitar as casas com oratórios e flores e as ruas com tapetes ornamentados, tudo em honra do Senhor que vem visitar o seu povo.

Começaram assim as grandes procissões eucarísticas, as adorações solenes, a Bênção com o Santíssimo no ostensório por entre cânticos. Surgiram também os Congressos Eucarísticos, as Quarenta Horas de Adoração e inúmeras outras homenagens a Jesus na Eucaristia. Muitos se converteram e todo o mundo católico.

Eucaristia: Presença real de Jesus no pão e no vinho consagrados

Todos os católicos reconhecem o valor da Eucaristia. Podemos encontrar vários testemunhos da crença da real presença de Jesus no pão e vinho consagrados na missa desde os primórdios da Igreja.
Leia também: História da Festa de Corpus Christi

Mas, certa vez, no século VIII, na freguesia de Lanciano (Itália), um dos monges de São Basílio foi tomado de grande descrença e duvidou da presença de Cristo na Eucaristia. Para seu espanto, e para benefício de toda a humanidade, na mesma hora a Hóstia consagrada transformou-se em carne e o Vinho consagrado transformou-se em sangue. Esse milagre tornou-se objeto de muitas pesquisas e estudos nos séculos seguintes, mas o estudo mais sério foi feito em nossa era, entre 1970/71 e revelou ao mundo resultados impressionantes:

A Carne e o Sangue continuam frescos e incorruptos, como se tivessem sido recolhidos no presente dia, apesar dos doze séculos transcorridos.

O Sangue encontra-se coagulado externamente em cinco partes; internamente o sangue continua líquido.

Cada porção coagulada de sangue possui tamanhos diferentes, mas todas possuem exatamente o mesmo peso, não importando se pesadas juntas, combinadas ou separadas.

São Carne e Sangue humanos, ambos do grupo sanguíneo AB, raro na população do mundo, mas característico de 95% dos judeus.

Todas as células e glóbulos continuam vivos.

A carne pertence ao miocárdio, que se encontra no coração (e o coração sempre foi símbolo de amor!).

Mesmo com esse milagre, entre os séculos IX e XIII surgiram grandes controvérsias sobre a presença real de Cristo na Eucaristia; alguns afirmavam que a ceia se tratava apenas de um memorial que simbolizava a presença de Cristo. Foi somente em junho de 1246 que a festa de Corpus Christi foi instituída, após vários apelos de Santa Juliana que tinha visões que solicitavam a instituição de uma festa em honra ao Santíssimo Sacramento. Em outubro de 1264 o papa Urbano IV estendeu a festa para toda a Igreja. Nessa festa, o maior dos sacramentos deixados à Igreja mostra a sua realidade: a Redenção.

A Eucaristia é o memorial sempre novo e sempre vivo dos sofrimentos de Jesus por nós. Mesmo separando seu Corpo e seu Sangue, Jesus se conserva por inteiro em cada uma das espécies. É pela Eucaristia, especialmente pelo Pão, sinal do alimento que fortifica a alma, que tomamos parte na vida divina, nos unindo a Jesus e, por Ele, ao Pai, no amor do Espírito Santo. Essa antecipação da vida divina aqui na terra mostra-nos claramente a vida que receberemos no Céu, quando nos for apresentado, sem véus, o banquete da eternidade.

O centro da missa será sempre a Eucaristia e, por ela, o melhor e o mais eficaz meio de participação no divino ofício. Aumentando a nossa devoção ao Corpo e Sangue de Jesus, como ele próprio estabeleceu, alcançaremos mais facilmente os frutos da Redenção!

Professor Felipe Aquino

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Jesus disse que “a carne é fraca” (Mt 26,41); carne na Bíblia significa a nossa natureza humana, fraca, miserável, depois que o pecado entrou em nossa história. Todos nós experimentamos isso, até mesmo São Paulo se lamentava de não fazer o bem que queria e fazer o mal que detestava (cf Rom 7).

Mas o mesmo Jesus nos trouxe a salvação; agora, com Sua graça e Sua bênção, podemos vencer as nossas fraquezas. É uma luta sem tréguas, e que exige que nós busquemos, então, os auxílios deixados por Ele na Igreja: os sacramentos, a oração, a meditação de Sua Palavra e de bons livros; o propósito e o arrependimento cada vez que o pecado nos vencer, etc.

No entanto, também é preciso entender que a nossa santificação é mais um trabalho de Deus em nós, do que de nós em nós mesmos. Não temos força e poder de vencer sozinhos o mal que há em nós. Por isso, se faz necessário lutar com todos os recursos citados acima, mas sabendo que “é Deus quem, segundo o seu beneplácito, opera em nós, o querer e o fazer” (Fil 2,13).

Deus nos conhece antes de sermos gerados; “Nele existimos nos movemos e somos” (At 17,28), e sabe como agir em nós. Temos de ter paciência não só com os outros, mas também conosco mesmos e saber esperar a maturação do nosso espírito, assim como acontece na maturação da flor e do fruto na natureza. Pela natureza Deus nos dá lições diárias para a vida espiritual. A natureza não se cansa e não se exaspera; não desanima. Deus não tem pressa porque é eterno, o tempo é todo Dele. São Paulo diz ainda que “é Ele quem nos capacita”; Ele é “Aquele cujo poder, agindo em nós, e capaz de fazer muito além, infinitamente além de tudo o que nós podemos pedir” (Ef 3,20). Então, paciência!

Vamos fazer uma comparação para entender melhor isso. Jesus contou uma parábola sobre o Reino de Deus, comparando-o ao agricultor que lançou a semente na terra, e dormiu; levantou-se de dia e de noite, e a semente germina sem ele saber como. Porque a terra, por si mesma, produz primeiro o caule, depois a espiga, e depois o trigo maduro na espiga. Só então o homem mete a foice, porque chegou o tempo da colheita. (cf. Mc 4,26-29)

O agricultor esforça-se para preparar bem o terreno, retirar as pedras, adubar o solo para a sementeira; mas, uma vez semeado o grão, já não pode fazer por ele mais nada, a não ser esperar com paciência, até o momento da ceifa. Ele espera a terra germinar a semente, espera a chuva do céu; e somente pode tirar as ervas daninhas. Ele não pode realizar o milagre de fazer a semente germinar; o grão se desenvolve por sua própria força interna. Ora, com esta comparação o Senhor mostra o vigor íntimo do crescimento do Reino de Deus no mundo e em nós também, até o dia da ceifa (cf Joel 3,16; Ap 14,15). Esse Reino de santidade.

Jesus quer mostrar que a pregação do Evangelho, que é a semente abundantemente espalhada, dará o seu fruto sem falta, não dependendo de quem semeia ou de quem a rega, mas de Deus, “que dá o crescimento” (1 Cor 3,5-9). Tudo se realiza sem que os homens se deem conta.

Ao mesmo tempo o Reino de Deus indica a operação da graça de Deus em nossas almas: Deus opera silenciosa e pacientemente em nós, respeitando nossa realidade, sem queimar etapas para não nos queimar. Assim Ele faz uma transformação em nós, enquanto dormimos ou enquanto velamos e trabalhamos, fazendo surgir no fundo de nossa alma resoluções de fidelidade, de entrega, de desejo de fazer Sua vontade…, até nos levar àquela idade perfeita, “o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo” (Ef 4,13); “conformados à imagem de Cristo” (Rom 8,29), como falava São Paulo.

O nosso esforço é indispensável para vencer a nós mesmos, o nosso egoísmo, apegos às coisas e criaturas, sensualidade, ira, inveja, preguiça, gula, etc., mas, em última análise é Deus quem atua, porque “os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rom 8,14), e Deus cuida deles. É o Espírito Santo que, com suas inspirações, vai dando um tom sobrenatural aos nossos pensamentos, desejos e atos.

Precisamos, então, fazer a nossa parte, mas com paciência e sabendo esperar a vitória sobre nós mesmos florescer como a planta que cresce lentamente, para poder crescer forte. O que nasce grande é monstro. Na obra de vencer a nós mesmos, e superar nossa miséria, a grande arma é a paciência. Santo Agostinho disse que: “Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência”. Jamais ficar pisando a própria alma quando ela cair, dizia o sábio doutor São Francisco de Sales. Dê a mão a alma caída e levante com carinho para retomar a caminhada, depois do arrependimento.

Como Deus faz crescer em nós a paciência?

Fazendo-nos exercitar nela. É para isso que ele permite as tribulações, doenças, pessoas “chatas” ao nosso lado, gente que nos critica, condena, nos despreza… Tudo isso para treinar nossa paciência, senão ela não cresce e não se fortalece para enfrentar os combates da vida. O mesmo Santo Agostinho disse: “Ainda não alcançamos a Deus, mas temos o próximo perto de nós. Suporta aquele com o qual andas e alcançarás Aquele junto do qual queres permanecer eternamente”.Ninguém perde por esperar!

Prof. Felipe Aquino